CPPP experimenta o poder transformador da música

Festpri realiza sua décima edição no Complexo, reune presos da RMBH e guarda momentos históricos

 

 

Uma tarde para entrar na história. Desde as primeiras horas do dia a atmosfera do CPPP já estava diferente. O corre-corre pelos corredores e o entra e sai apressado eram por caixas de som, iluminação, cabos de microfone, ajustes no palco. Nada que ao menos de longe parecesse a rotina de uma unidade prisional. Eram os preparativos para uma série de momentos dos mais emocionantes de nossos quase seis anos de história.

Durante cerca de quatro horas a penitenciária se transformou em local de troca. Emoções, aplausos, discursos e música. Muita música. Assim foi a grande final da décima edição do Festival da Canção Prisional (Festpri) da Região Metropolitana de Belo Horizonte, que pela primeira vez foi realizado no CPPP.

Ao todo, 18 presos concorreram à melhor música e também ao melhor intérprete, se apresentando em duplas, bandas de vários estilos musicais e até sozinhos, como foi o caso do MC Neguinho, preso no próprio CPPP, que defendeu sua canção acompanhado apenas de uma base eletrônica de funk.

Além das três unidades em funcionamento do CPPP, outros cinco estabelecimentos prisionais participaram da competição: Complexo Penitenciário Doutor Pio Canedo, de Pará de Minas, Presídio Inspetor José Martinho Drumond e Penitenciária José Maria Alkmin, ambos de Ribeirão das Neves, e o Complexo Penitenciário Nelson Hungria, em Contagem.

O trabalho para o corpo de jurados não foi nada fácil. E olha que o grupo era formado por gente com muita experiência na música e também no sistema prisional. A estilista Raquell Guimarães, que há 10 anos trabalha sua grife de alta costura Doisélles dando oportunidades a presos na produção, é um exemplo. O diretor teatral Marcelo Felice, que por 21 anos coordenou trabalho teatral com mais de 1,5 mil presos em Rondônia, que culminou com o espetáculo Bizarros, assistido por milhares de pessoas por mais 15 anos em sete capitais brasileiras, outro.

Na parte musical gente experiente como o cantor e compositor Celso Adolfo, autor de alguns clássicos da música mineira, parceiro de artistas como Milton Nascimento e outros grandes nomes da nossa música. Gente que já está trilhando seu caminho de sucesso, como é o caso do cantor Ian Alone, participante da última edição do “The Voice Brasil”, programa musical da Rede Globo.

O rapper Felipe Vilela, e também coordenador do Missão África, foi jurado e emocionou o público com seu depoimento de vida e sua música. O corpo do juri teve ainda a presença do compositor e baterista da banda Preto no Branco, Jean Michel.

Depois de tantos momentos de emoção, chegou a hora do resultado. E o preso Daniel Camilo, da Unidade 03 do CPPP, que já tinha protagonizado momento de muita emoção na abertura do evento, quando cantou ao lado de seu irmão, o cantor Gabriel Camilo, acabou levando o primeiro prêmio e também o título de melhor intérprete do concurso.

O rapper Edilson, da Penitenciária Nelson Hungria, ficou em segundo lugar. Ele foi acompanhado de banda de colegas de cela, batizada no palco pelo apresentador Alex Passos como Banda de Deus. Já o terceiro lugar ficou a dupla sertaneja Alexandre e Elias, do Presídio Inspetor José Martinho Drumond.

O delegado Estadeu Costa, idealizador do projeto e morto em 2010 foi o homenageado desta edição. Sua família recebeu uma placa em homenagem com os seguintes dizeres:

“Nossa sincera homenagem à memória do maestro José Estadeu Costa, criador do Festpri, por seu trabalho incessante e por seus serviços prestados em prol da educação e da cultura no ambiente prisional de Minas Gerais.”

Para fechar a festa com chave de ouro, o grupo Preto no Branco, um dos maiores nomes da Música Gospel no país, fez show inesquecível para o público. E muito especial também para dois de nossos colaboradores.  A generosidade do líder do Preto no Branco, o cantor Clovis Pinho, permitiu um encontro inédito no palco. Os monitores Débora Cristiane e Lucas Laércio, o vencedor da noite, Daniel Camilo, e o próprio Clovis fecharam o espetáculo cantando juntos: um show. Uma mostra do que é o espírito e a filosofia de trabalho da GPA.

 

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